Os 90 anos de um sangrento episódio da história do Vale

A cruz de madeira aponta o lugar. Pregada a ela, a inscrição: “16/10/1930, data do combate com muitas mortes e feridos. Tropas do RS vencem Legalistas Catarinenses”. A cruz está localizada a 18 quilômetros do Centro de Anitápolis e marca uma das batalhas mais sangrentas da ‘Revolução de 1930’. Um episódio que, nesta sexta-feira, dia 16, completa 90 anos, e que, apesar de pouco lembrado na história oficial de Santa Catarina, foi fundamental para a ascensão ao poder de figuras mais emblemáticas da história do Brasil: Getúlio Vargas.
Batizado de a ‘Batalha da Garganta’, o embate entre getulistas e soldados integrantes do governo vigente teve como palco a Serra na Garganta, uma região das Encostas da Serra Geral, cercada de mata nativa, entre os municípios de Anitápolis e São Bonifácio. Deixou vários mortos e feridos.
Um dos relatos mais completos sobre a Batalha da Garganta está registrado no livro ‘Tombados e Esquecidos’, escrito pelo coronel e ex-comandante da Polícia Militar de Santa Catarina Valmir Lemos. Lançada em 2005, a publicação é um compilado de documentos históricos e depoimentos de pessoas que vivenciaram os fatos – combatentes de ambos os lados e testemunhas civis – mesclados com o texto do próprio autor. A obra conta a história não apenas do episódio de Anitápolis, mas também de toda a passagem das tropas revolucionários pelo estado.
Segundo o que é contado por Lemos, a Serra da Garganta era um ponto estratégico, de grande importância, pois era a única via que ligava Sul de Santa Catarina à Grande Florianópolis, muito usada pelos tropeiros para o transporte de produtos do Rio Grande do Sul para os demais estados do País. Para que os rebeldes tivessem êxito em sua luta, teriam que passar por ali.
Dias antes da batalha, todo o Sul já havia sido ocupado pelas tropas de Getúlio. A Revolução iniciou-se em 3 de outubro no Rio Grande do Sul. Em menos de 15 dias, Araranguá, Tubarão, Braço do Norte e Rio Fortuna já estavam tomadas. Em 14 de outubro, os primeiros revolucionários chegavam em Anitápolis. “Ciente da presença de forças legalistas da região, particularmente da defesa entrincheirada na serra, major Camilo Diogo, comandante dos rebeldes na região, iniciou seu deslocamento rumo a Anitápolis. Os soldados que marchavam à frente, armados de fuzis, cautelosamente iam entrando na pequena vila atentos a uma possível reação inimiga”, relata Lemos na sua obra.
Com o objetivo de resistir ao avanço rebelde que contava com a presença de centenas de homens, os legalistas, em sua maioria policiais militares de Santa Catarina e civis que eram arregimentados pelo caminho, resolveram entrincheirar-se no meio da estrada da Garganta e ali montaram acampamento aguardando a chegada dos guerrilheiros. “Em Anitápolis desde o dia 14, a vanguarda de Camilo Diogo se familiarizava com a região e intensificava a busca de informações sobre o inimigo e sua forte posição na Serra da Garganta”, conta o autor.
A posição dos governistas era considerada de “alto valor militar”. Seria difícil serem derrotados em um ataque, a não ser que fossem surpreendidos. Assim aconteceu, pois os revolucionários foram informados da existência de uma trilha utilizada por bugreiros, como eram conhecidos os caçadores de índios, que os permitiria se posicionarem na retaguarda dos entrincheirados. No dia 16, decidiram seguir a trilha que os levariam ao inevitável combate. “Dali iniciaram o envolvimento que os levaria para se posicionar à retaguarda das trincheiras. Numa carga feroz, os revolucionários se lançaram, de surpresa, sobre os desatentos homens. O pânico foi geral. O inimigo que então estava à frente, subitamente atacava pela retaguarda, a confusão se estabeleceu. A defesa entrou em colapso. Os primeiros a serem atingidos foram os civis que estavam acima e à retaguarda e compunham a segunda linha de defesa das trincheiras”, enfatiza Lemos. “Na primeira linha, a concentração de tiros de metralhadoras pesadas assestadas na subida da serra atingia a vegetação que circundava a trincheira, cortando galhos de árvores e atingindo o barraco que ficava logo atrás, provocando um ruído crepitante e um sibilar aterrador para os defensores da Garganta que, na sua maioria, estavam tendo o seu batismo de fogo real”, acrescenta.
Registrado no livro, o testemunho de Sálvio Rodrigues Brasil, combatente civil das linhas legalistas, impressiona dá uma ideia da violência do combate: “De repente, pelas 11 horas, ouvi atrás de mim uns tiros. Pensei que fossem oficiais para experimentar nossa coragem. Fiquei no lugar. Mas vi, descendo pelo mato, dezenas de soldados com lenço vermelho. Não havia dúvida, eram os gaúchos. Nem pensei na Winchester e saltei barranco abaixo. Foi nesse momento que uma bala atingiu-me no ombro. Meus colegas correram barranco abaixo, sendo ferido Miguel Schmidt, de Teresópolis. Uns agarraram o mato e outros ocultaram-se num bueiro, onde foram presos. Prenderam-me e atiraram-me contra o barranco com outros companheiros. Mandaram que nos agachássemos num valo na estrada: ‘Não me levantem a cabeça’, berrava o comandante do piquete, major Camilo. As balas zuniam por cima de nossas cabeças”.
Os registros dão conta de que, ao fim da batalha, oito homens morreram no local. Destes, apenas um entre os revolucionários. Foram enterrados ali mesmo, em cova rasa. A cruz de madeira marca o lugar. Posteriormente, seus corpos foram transladados. Pelo menos seis ficaram feridos e outros 32 legalistas foram rendidos e levados presos para Palhoça. No município de São Bonifácio, em 1991, para que os fatos não fossem esquecidos, foi inaugurada a Praça dos Heróis do Combate da Serra da Garganta, onde está situado o hospital da cidade, sob número de endereço 1930.

Praça dos Heróis do Combate da Serra da Garganta

A Revolução de 1930

Até 1930, prevaleceu sobre a República brasileira, a ‘Política do Café com Leite’. Assim era chamada porque se consistia na alternância de poder entre as oligarquias dos estados de São Paulo, grande produtor de café, e de Minas Gerais, que tinha no leite sua principal fonte de renda.
A cada eleição, quando o presidente da República tinha sua base política em São Paulo, ele escolhia como candidato à sucessão um representante de Minas Gerais, e vice-versa. A aliança entre os dois grupos ruiu quando o então presidente Washington Luís, paulista, indicou seu conterrâneo Júlio Prestes para disputar a sucessão presidencial. Tal atitude fez com que as oligarquias mineiras, junto com outros grupos políticos que também queriam participar do processo, criassem um novo partido, a ‘Aliança Liberal’, e lançassem como candidato a presidente o governador do Rio Grande do Sul, Getúlio Vargas, tendo como vice João Pessoa, da Paraíba.
Na disputa eleitoral, ocorrida em 1º de março de 1930, Prestes saiu vitorioso. Insatisfeitos com o resultado, e tendo como o estopim o assassinato de João Pessoa, em 26 de julho de 1930, por motivos de política regional, os grupos oposicionistas decidiram pegar em armas e destituir, à força, o presidente Washington Luís. As tropas partiram principalmente do Sul e do Nordeste em direção ao Rio Janeiro, na época Capital Federal. Washington Luís foi deposto em 24 de outubro de 1930 por um a junta militar provisória. Em 3 de novembro, Getúlio Vargas assumiu o poder, dando início ao período histórico da República chamado Estado Novo.
Apesar de ser conhecido como ‘Revolução de 1930’, esse termo não é mais aceito entre historiadores e demais estudiosos do assunto, sendo considerado mais apropriada a designação ‘movimento político de 1930’. Apesar da mudança no cenário político nacional, o episódio, afinal, não se caracterizou-se por um rompimento total com as oligarquias estaduais.
Além da instabilidade política, a crise econômica, desencadeada pela quebra da Bolsa dos Estados Unidos em 1929, também influenciou a revolta de 1930 e fez com que o movimento angariasse a simpatia de populares. O café era o principal produto de exportação e a base da economia brasileira. Com a crise 29. O grão perdeu muito valor de mercado e causou uma série de outros problemas econômicos.

Linha do tempo

Final de
1929

  • Quebra da Bolsa de Valores de Nova Iorque
  • Júlio Prestes é indicado por Washington Luís candidato a presidente
  • Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Paraíba lançam candidatura de Getúlio Vargas

Em 1930

1º de março
l Júlio Prestes é eleito presidente do Brasil

26 de julho
João Pessoa, governador da Paraíba e vice na chapa de Vargas, é assassinado

3 de outubro
Liderada por Vargas, com apoio das forças políticas de Minas Gerais e da Paraíba, instaura-se a Revolução

4 de outubro
Inicia a ocupação do Sul catarinense

14 de outubro
Tropas revolucionárias chegam em Anitápolis

16 de outubro
É travado o Combate da Garganta

18 de outubro
Florianópolis é cercada

24 de outubro
No Rio de Janeiro, Washington Luís é deposto, uma junta militar assume o poder

25 de outubro
Florianópolis se rende, a Revolução toma Santa Catarina

3 de novembro
Getúlio Vargas chega ao Rio de Janeiro e é aclamado presidente do Brasil


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