Por que eu trabalho?

Coluna de Aline Patel Tramontin

Durante a pandemia o órgão do governo para o qual trabalho, ao invés de parar totalmente, decidiu se adaptar e continuar as atividades de um modo um pouco diferente, em homeoffice. Trabalhar em casa, para mim, sempre pareceu um sonho, o emprego perfeito, mas depois de alguns meses nesta situação, tenho a dizer que não é bem assim. Pode ser a coisa mais incrível do mundo para quem não tem crianças ou passa o dia num escritório. Imagina que maravilhoso poder conciliar tudo?
Trabalhar em casa é bom. Pijama o dia todo, pausa para uma caminhada pelo jardim, silêncio, cheiro de café, lanche na cozinha, tomar um banho relaxante no meio do expediente, fazer um alongamento, entre outras maravilhas. Porém, as escolas também estão fechadas, assim, adicione um ou mais filhos nessa equação e a paz acabou.
Verdade seja dita, a maioria das mães vive conectada, e independente de trabalhar fora, em casa ou não trabalhar, tem naturalmente uma série de coisas a fazer. Por outro lado, crianças gostam, precisam, querem e exigem atenção, de preferência, exclusiva. Como lidar?
Poucas mães não sentem uma descarga elétrica no corpo ao ouvir: “Mãe, brinca comigo?” Durante esta quarentena o sentimento de culpa aumentou. Uma vez que estar ausente devido ao trabalho é uma situação, outra completamente diferente é estar em trabalho na frente do seu filho. Você tem dois caminhos a este questionamento: explicar que não pode naquele momento e arcar com a reação ou parar o que está fazendo e brincar.
Aqui em casa a situação ainda teve um desdobramento. Quando Theo pediu para brincar com ele, optei pela primeira resposta. Estava pronta para a consequência. Expliquei ao Theo que naquele momento não poderia, que havia muito trabalho a ser feito, mas, assim que concluísse brincaria o resto do dia com ele. Esperava que ele aceitasse ou que iniciasse uma cena de choro. Nem uma, nem outra. Surgiu com uma pergunta: Mas mãe, por que você trabalha? Respondi de pronto: Theo, a mamãe trabalha para comprar seus brinquedos. E, ele rebate: Mãe, eu já tenho bastante brinquedo. Não precisa mais trabalhar.
Naquele momento fiquei sem reação. Ele havia vencido a discussão. Parei tudo e fui brincar.
Mas, aquela pergunta persistiu em minha cabeça: “Por que eu trabalho?” Oras, eu sei que trabalho para ter minha independência, por ter sido uma conquista ser aprovada em um concurso tão disputado. Mas, será que se resume a apenas dinheiro e mérito? Como explicar isso ao meu filho de três anos?
Vou em busca de algumas matérias sobre o tema e encontro a melhor resposta. Segundo Marcos Piangers, autor dos livros “O papai é pop” e “O poder do eu te amo”, apesar de o trabalho estar, sim, atrelado a questões práticas, tais quais “pagar as contas”, o melhor a se fazer é falar do significado mais amplo. “Você pode explicar que está indo realizar uma missão que irá beneficiar várias pessoas, que está contribuindo para a sociedade. Que a vida é crescer. Achar um propósito e fazer algo que tenha impacto e transformação do mundo e, depois, uma vida mais satisfeita”. Concordo com Piangers.
Alguns dias se passaram e a pergunta retornou, já preparada, respondi: Theo, a mamãe está desenvolvendo um “projeto”! Muitas pessoas estão à espera da minha ajuda, e se eu não ajudar rápido elas ficarão muito tristes! A boa notícia é que já estou terminando, assim que concluir, vamos brincar até você se cansar! Theo aceitou. Saiu satisfeito. Ressurgi como sua heroína. Imagine o pensamento: “Minha mãe ajuda outras pessoas!”, “Que baita mãe tenho!”.
Junto a isso, acredito ter iniciando um processo de interiorização com relação ao trabalho versus sociedade. Todos trabalhamos com o fim de tornar a sociedade melhor e o entendimento desta concepção se desdobrará em um ser humaninho com noção de que o trabalho é bom e necessário para vida em comunidade. Uns precisamos dos outros.


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