segunda-feira, novembro 30Diário online de Braço do Norte

Sua Majestade, a Rotina.

Luno Volpato

Olha ela aí!… Ei-la com estilo, personalidade e poder. Quem não a conhece? Quem já não teve um flirt com este evento, agora na crista da onda? Quem já não privou de sua intimidade, observando a paisagem na linha difusa do horizonte? De repente, a rotina, vista de soslaio por seus usuários, torna-se o umbigo do mundo e assume ares de pompa e realeza. A gosto ou a contragosto, ela impõe sua marca inconfundível de aconchego, parceria e fidelidade…

Sem querer enveredar por prolixas especulações filosóficas, grosso modo, a rotina é o desfecho de um processo inevitável, a repetição de fatos, circunstâncias, situações, em certo tempo e lugar. Acordar, levantar, tomar café, respirar o ar puro das manhãs, tomar sol, fazer uma caminhada, assistir televisão, encontrar os amigos, ler um livro, agradecer a vida ao Grande Arquiteto do Universo, são algumas ações que nos cortejam diariamente e cujos reflexos se fazem sentir ao longo de nossas vidas…

O dia e a noite, as estações, os rios que correm para o mar, são outros representantes evidentes destes ciclos inevitáveis. Há, porém, eventos que fogem à inclemência das repetições. Os dias, por exemplo, se repetem de forma singular. Jamais um dia é absolutamente igual ao outro. Diante de conflitos que parecem não ter fim, não falta alguém para dizer, já sem qualquer argumentação plausível que “amanhã será outro dia”, insinuando que um novo ciclo de 24 horas pode trazer uma mudança significativa para suas pretensões. Há controvérsias…

Quer queiramos quer não, a rotina está intrinsecamente atrelada a nossos afazeres. Indiscreta, agradável, indesejada, enfim, das mais diversas formas ela nos acompanha, observa, e marca território. Incansável, determinada, cruel às vezes, não abre mão de participar de nossos atos.

Exemplo clássico de rotina quase inevitável, são certos casamentos que, em dado momento já não correspondem à expectativa dos antigos namorados. Então os personagens, diante do clima tenso que os acomete, apelam para um atenuante que os conforta, até certo ponto: a rotina era inevitável…  Não havia como… Triste fatalidade!…

A lei, estabelecida nos códigos que a sociedade criou, não deixa de ser uma rotina. Cumpri-la nos parâmetros que a jurisdição determina é um gesto necessário para um convívio social harmonioso e saudável. O imperativo das normas cria um ambiente respeitoso e fortalece a cidadania.

Mas a rotina cansa, desgasta… Nem sempre!

Existe rotina mais gratificante do que ler um bom jornal todas as manhãs, ou fazer amor todas as noites, o que nos leva a exclamar, ainda que interiormente: benvinda, bendita, doce, inesquecível rotina! Como não se render à suntuosidade de uma noite de luar pontilhada de estrelas! Que maravilha contemplar auroras inenarráveis e crepúsculos indescritíveis que desafiam as telas dos melhores artistas! Que rara oportunidade para introspecção, para cortejar as artes, a música, a pintura, a poesia… A espiritualidade…

A rotina é inevitável! É o que mais se houve. Criatividade é a resposta mais apropriada para amenizar este drama. E neste quesito, o brasileiro, batalhador por natureza, criativo por necessidade, sai na frente. Espirituoso, convive com os altos e baixos de sua luta pelo ganha-pão. Sem se render!

            Tenho observado, todos os dias, soberbos exemplos de desprendimento e solidariedade. De amor! Profissionais da segurança, da área de alimentação e da saúde, sobretudo, na linha de frente, arriscam a própria vida, em defesa dos menos favorecidos. Abençoada rotina do cumprimento do dever, que salva vidas e desperta sonhos!… Bravo!

Pelo visto, nestes tempos, não há quem não se renda à sua realeza…

Luno Volpato

Presidente do CEPAC (Centro de Poesia e Arte de Campinas)

Membro do IGGHC Instituto Genealógico, Geográfico e Histórico de Campinas.

Membro da ACL – Academia Campinense de Letras

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