Qual é a dor que mais dói?
Uma senhora acredita que sua filha foi sequestrada e deposita seu salário inteiro para um golpista. Seu José apostou todo o dinheiro da aposentadoria em um jogo. Dona Maria, depois de anos economizando, perde tudo achando que comprava passagens e passeios para Paris.
Dói perder. Seja o que for.
Tem dias em que a gente acha que nem deveria ter acordado. A dor do mundo moderno se estende a cada minuto. Golpes e mais golpes... Há pessoas frágeis e inocentes. Gente que só queria acreditar.
Deus me livre desses males modernos.
Não gosto de fazer compras pela internet (sim, sei que pode e a maioria das vendas já provaram ser seguras). Mas um carro, com um valor tão alto, dificilmente você vai me ver comprando por lá.
Outro dia ouvi a história de uma família que alugou uma casa para passar as férias de fim de ano… e, ao chegar no local, encontraram apenas um terreno vazio.
Claro, coisas boas também existem. Comprei um curso on-line que estou adorando. E foi pela internet. Há bons serviços, bons profissionais, bons encontros virtuais.
Mas, é como atravessar a rua: olhe para os dois lados antes de atravessar para o outro lado.
Oportunistas sempre existiram.
Mas hoje, a poesia é muitas vezes adiada, o humor engolido. Ninguém mais atende uma ligação com número desconhecido. São histórias tristes e falsas.
Vá até uma delegacia: todo dia alguém relata mais um desses trocadilhos cruéis da vida moderna.
Que tipo de gente monta uma estratégia para explorar a fragilidade emocional de alguém?
E ainda tem os golpes com CNPJ, também não faltam. Vivemos um mundo de dores, angústias e traumas. Há gente agora com uma arma apontada para o próprio peito.
Não dá mais para confiar nem em vozes. Nem em mensagens. Podem ser falsas. Podem ser fabricadas.
Planeta manipulado. Mundo ávido. E a gente aqui… lutando para manter a sanidade mental.
Mas, ainda assim, existe beleza.
Ainda há pessoas que ajudam outras, sem pedir nada em troca. Um desconhecido que devolve uma carteira perdida. Um grupo que se une para arrecadar alimentos a quem passa fome. Gente que empresta os ombros e ouvidos sem interesse. Professores que mudam destinos. Psicólogos que salvam vidas com palavras. Voluntários que reconstroem casas. Mães que criam filhos com dignidade e coragem. Amigos que fazem do riso uma cura.
Ainda existem encontros sinceros. Amores que nascem sem algoritmos. Gente que cultiva fé, mesmo em meio ao caos.
O mundo ainda tem salvação — nos pequenos gestos.
E talvez, seja isso que nos sustenta:
a esperança que brota mesmo quando a dor tenta sufocar.
Era um dia de janeiro. Um amigo manda mensagem: “Tá na cidade? Quase todo mundo foi pra praia. Vem almoçar aqui. Tem carne, guimes, arroz… nada de luxo hoje, aqui no seu Vilson Cordioli e na dona Marlene. Vem pra gente beber uma Heineken”. Sem mais. Claro que eu fui. Um calor danado naquela quinta-feira. Almoçamos, na verdade, já tínhamos almoçado, e fomos pra área da casa. Continuamos na cerveja. A Sílvia entrou pra sala, no ar-condicionado. Logo a irmã dela chegou, de outra cidade. As duas lá dentro, e nós aqui fora.
Como bons amigos que somos desde o nascimento, desde o tempo de criança, a gente falava de tudo. Sobre tudo. Tínhamos intimidade pra isso, e o papo fluía. A JBL ligada. E ele gosta muito de Bruce Springsteen (nunca sei escrever direito esse sobrenome). Dois meses depois daquele dia, apareceu pra mim um filme sobre o Bruce. Um filme sem muito alarme de Hollywood. Mas com uma história bacana. O Bruce tem depressão. Seu empresário busca ajuda pra ele. E isso me tocou. Bruce foi pra terapia.
Dez meses depois, ele volta a fazer show e diz, para seu empresário, que está encontrando o seu caminho. Bruce ajuda o pai e a mãe com casa e dinheiro. O pai dele é uma boa pessoa. O filme é baseado no livro "Deliver Me from Nowhere", de Warren Zanes. Algumas frases ficaram comigo: “Tudo morre, querida, isso é fato. Mas talvez tudo o que morre, um dia volte.” E também: “Eu tenho um emprego, e tentei guardar meu dinheiro”.
Bruce continuou lutando contra a depressão, mas nunca mais sem ajuda e sem esperança. Valeu, Rafael, pelo bom papo, pela conversa e por colocar pra tocar Bruce Springsteen. Vou colocar meus fones agora e ouvir de novo. Porque, no fim, entre um almoço simples, uma cerveja gelada e uma música, a gente também vai, aos poucos, encontrando o próprio caminho.
Neném, Valdemar Cândido, foi, antes de tudo, um construtor de caminhos. Um homem generoso, visionário e apaixonado pela música, que acreditava nas pessoas e no poder dos encontros. Muito mais do que um dos fundadores da banda Matusa, ele foi alguém que fez acontecer, que abriu portas, que aproximou artistas, públicos e sonhos. Sua presença era simples, mas marcante; sua postura, sempre respeitosa; e sua forma de trabalhar, feita com verdade, dedicação e amor pelo que fazia. Lembro com carinho da única vez em que conversamos, no Cabana Grill, em Braço do Norte. Uma conversa breve, mas suficiente para perceber o quanto ele era humano, acessível e inteiro no que acreditava.
O Matusa fez parte da nossa formação afetiva. Não foi só trilha sonora; foi encontro, foi abraço, foi identidade. Arrastava gente de tudo quanto é canto e, sem exagero, era o melhor show nacional que a gente podia viver naquela fase da vida. A banda marcou uma geração inteira e ajudou a escrever a história dos nossos fins de semana, das nossas amizades e da nossa juventude. E hoje é impossível separar essa memória da figura do Neném, que esteve nos bastidores, sustentando sonhos para que a magia do palco pudesse existir.
Fica aqui a despedida de alguém que viveu com alegria e que levou felicidade aos bailes da vida. Porque ninguém vive sem arte. A música tem esse poder silencioso de encantar pessoas, aproximar histórias e atravessar gerações. Lembro como se fosse hoje: “galera, vai ter Matusa em Orleans”, “O Matusa vai tocar em Urussanga”… e todo mundo ia. Teve até uma vez em que a vontade de estar lá era tanta que, sem dinheiro no bolso, a gente pulou o muro. Éramos jovens querendo viver a vida. Eu sei que o certo a gente não fez, mas era o que a nossa juventude conseguia naquele momento.
Os bailes tinham seus encontros, seus encantos e também suas imperfeições, como a própria vida. Este texto nasce para deixar algumas palavras de carinho e conforto aos amigos e familiares do nosso ídolo, que ajudou a construir tantas memórias felizes. E, para encerrar, deixo um verso que hoje soa como despedida e como gratidão, na voz dos Titãs, na canção Marvin:
“A vida é pra valer, eu fiz o meu melhor… e o meu destino eu sei de cor.”
A praia, em si, já carrega uma energia boa. O mar, a água salgada, o vento no rosto e o pé descalço na areia. Tudo ali faz bem. Quantas vezes, ao longo do ano, a gente tira o sapato e pisa o chão sem pressa? Na praia, a caminhada é livre, quase terapêutica. A gente troca energias, descarrega o peso dos dias, se renova. O corpo relaxa, a mente desacelera e o coração encontra um ritmo mais humano.
Na praia, as famílias se aproximam de um jeito raro. Dividem o prato, repartem o mesmo pão, a mesma conversa. Tudo vira confidência, tudo vira escuta. Pai, mãe, irmãos, primos. Todos ali, ao mesmo tempo, na mesma hora. Não há urgência, não há relógio mandando. São momentos simples, cotidianos, mas que se tornam únicos. E justamente por isso, eternos.
Lembro da casa de praia da Dona Osmarina, amiga da minha mãe. Ali, entre um café e outro, falávamos da vida dela: das viagens, do trabalho, das rotinas. Em meio às conversas, descobri que, em São Paulo, ela e minha mãe haviam comprado meu enxoval. Aquilo me atravessou de um jeito bonito. Percebi que, muito antes de eu entender o mundo, já havia cuidado, afeto e dedicação sendo tecidos em silêncio. A praia também é isso: um lugar onde as memórias ganham voz.
E tem comida boa na mesa. Siri, camarão, peixe fresco, sorvete derretendo rápido demais. A carne suína e a bovina dão uma pausa; os frutos do mar trazem leveza, trazem vida. E para quem não gosta, tudo bem: arroz com ovo resolve qualquer história. O que importa não é o cardápio, é o encontro. A vida é curta. Então coma a sobremesa primeiro. Porque a praia, no fim das contas, é exatamente isso: a sobremesa da vida.
A vida não vem com receita pronta. Não aponta qual é o melhor caminho, nem entrega respostas claras sobre o que fazer em cada encruzilhada. Neste fim de ano, ao reler passagens da Bíblia, especialmente as palavras de Jesus Cristo, o “JC” como gosto de chamá-lo, me veio a imagem de alguém profundamente humano: um bom ouvinte, acolhedor, atento às dores alheias. Em certo momento, ele diz algo como: “falando, vocês não aprendem”. Talvez porque algumas coisas só se aprendem vivendo, sentindo e se relacionando.
No dia 20 de janeiro teremos um churrasco com os amigos. Amigos que já são irmãos. E o bom da vida é isso. Esses encontros não resolvem nossos problemas, não tornam o caminho mais leve automaticamente, mas fazem algo fundamental: nos ajudam a acordar e viver melhor nos dias seguintes. É uma turma que cresce, mas cresce sustentada por uma palavra simples e poderosa: acolhimento.
A neuropsicologia confirma aquilo que a vida sempre ensinou. Somos seres sociais. Nosso cérebro se desenvolve, se organiza e encontra sentido na relação com o outro. Não fomos feitos para viver sozinhos. Precisamos pertencer, ser aceitos, ser inteiros diante de alguém. O vínculo reduz sofrimento, fortalece a saúde emocional e nos ajuda a enfrentar a complexidade da existência.
No fim das contas, talvez a vida não precise ser tão complicada. Rir das mesmas coisas, se divertir com o banal, estar junto sem grandes explicações. Não é assim que a vida deveria ser? Simples, humana e compartilhada. Porque, se pensarmos bem, o que realmente precisamos não é de respostas prontas, mas de encontros que acolhem.

Robson Kindermann Sombrio
Psicólogo (CRP 12/05587) e autor de vários livros de autoajuda. @robsonkindermannsom