Uma experiência que muda vidas

Médica de Grão-Pará relata sua experiência em atender venezuelanos refugiados da fome em Roraima

LEILA WESSLER FAUST passou dez dias cuidando de crianças e suas famílias em situação de rua

A médica ginecologista Leila Wessler Faust, 29 anos, alimentava o desejo de exercer algum tipo de trabalho voluntário, de ajudar pessoas com extremas necessidades. Foi quando teve a oportunidade de viajar para Pacaraima – cidade de Roraima que faz fronteira com a Venezuela – para atender venezuelanos fugitivos da crise de seu país natal em busca de melhores condições no Brasil. A médica, que é natural de Grão-Pará e atua em uma clínica de Florianópolis, não imaginava que a experiência mudaria para sempre sua vida.
Leia descreve os dez dias que passou no Norte do país, de 2 a 12 de novembro deste ano, como um choque de realidade. Para ir até lá, contou com o apoio do Projeto Canudos e de uma entidade beneficente ligada à Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, também conhecida como Igreja Mórmon, que a ajudaram nos custos de passagem. Em Pacaraima, foi recebida, assim como outros médicos e dentistas, e ficou abrigada em uma estrutura montada pelas Forças Armadas.

“São famílias que estão de fato fugindo da fome. Casais e seus filhos que deixam tudo para trás simplesmente por não terem o que comer”, relata a ginecologista. “Assim que chegam nessa estrutura das Forças Armadas, os refugiados recebem atendimento inicial. São cadastrados, ganham documentação de permanência no Brasil e vacinas obrigatórias no território brasileiro. Também são classificados conforme sua situação, se são de fato refugiados ou se estão em situação de abrigo temporário. Em casos mais graves, essas pessoas são encaminhadas para um abrigo”, conta.

A maioria das famílias, porém, não encontram de imediato um lugar para ficar e passam a viver em situação de rua. “Lembro, por exemplo, do meu primeiro dia de atendimento. Fomos até uma igreja de Boa Vista, capital de Roraima, e lá tratamos dezenas pessoas. A maioria era de casos de doenças relacionadas à aglomeração de pessoas e falta de higiene: sarna, piolho, muita micose e verminose. Havia também condições que eu nunca tinha visto antes, somente nos livros de medicina, como raquitismo e desnutrição”, relembra a médica.
Leila conta ainda um caso em especial que a deixou impactada. “Uma mãe levou uma criança com febre. Eu a mediquei e fui conversar com a mãe, que era casada e tinha outros dois filhos. Fui explicar como ela deveria medicar a criança assim que chegasse em casa. Mas aí, ela indagou: ‘Chegar em casa? Não temos casa, moramos na rua’. Aquilo me deixou muito impressionada. No dia seguinte, a mãe voltou. Levou novamente a criança que eu tinha medicado e também as outras duas. As três estavam com febre. Fiquei muito ruim com aquilo. Pois, como indicar um tratamento, fazer a medicação adequada, com essa família vivendo na rua?”, questiona. “Naquele mesmo dia, eu encaminhei uma carta a um abrigado próximo implorando para que aquela família fosse recebida, pelo menos até que as crianças terminassem o tratamento. Mas é algo muito difícil. Assim como aquelas pessoas, haviam outras 600 ou 700 na mesma situação”, lamenta.

Acolhimento e orgulho

Ao mesmo tempo em que ficou impressionada com o que viu naqueles dez dias, Leila tira lições positivas da sua experiência. “Naquele estrutura montada pelas Forças Armadas, é realizado todo um trabalho de acolhimento e, dentro das possibilidades, de encaminhamento dessas pessoas para que possam ter uma vida mais digna. Aquelas que têm alguma profissão ou ofício que possa ser exercido no Brasil são encaminhadas para outras regiões do país, o que é chamado de trabalho de interiorização desses refugiados. Tudo que isso que vivi lá me provocou um sentimento de satisfação, de muito orgulho de nosso país por acolher aquelas pessoas naquela situação de tamanha miséria”, destaca.
A quem também tem interesse em exercer algum trabalho voluntário, a ginecologista aconselha: “Eu recomendo muito que pessoas tenham essa experiência, ainda que seja perto de casa. Há pessoas próximas da gente precisando de um atendimento, inclusive há muitos venezuelanos vindo para a nossa região. E há demanda de trabalho voluntário a todos os profissionais, em todas as áreas”, garante.
Por fim, a médica também se demonstra grata àqueles que a ajudaram nessa experiência. “Agradeço, em especial, o coronel Maurício, Heleno, Medeiros, Fernando, Dario, Villa, PA, Zanovello, doutora Maria do Carmo e a capitã Patrícia. São pessoas que encheram o meu coração de orgulho de ser brasileira”, finaliza.

A crise venezuelana

Enquanto atendia as famílias venezuelanas, Leila buscava também saber sobre a história daquelas pessoas e perguntava sobre como era a vida delas antes de decidirem deixar seu país e porque resolveram deixar tudo para trás. “Eles me contavam que até tinham uma vida boa. Mas isso até o ano de 2014, quando veio a crise por causa queda do preço do petróleo. Hugo Chávez tinha morrido e o governo de Nicolás Maduro não conseguiu recuperar a economia, que foi ficando cada vez pior, a ponto de começar a faltar comida. Uma vez, eu perguntei para uma família quando foi que eles decidiram deixar tudo para trás e tentar viver no Brasil, e eles me disseram que foi quando chegaram a ficar três dias sem comer”. São histórias que a marcaram.
A médica conta que também perguntava às famílias venezuelanas se não tinham vontade de voltar ao seu país. Muitos respondiam que sim, mas que, por enquanto, seria melhor permanecer no Brasil. Apesar de todas as dificuldades, pelo menos poderiam ter uma refeição por dia.

 

 


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