Um bate-papo diretamente da Itália

Colunista Ezequiel Philippi ouve braçonortense que está na Europa e fala sobre o Covid-19

“Onde vivo tem uma foto bem emblemática que circula mundo a fora, quando o caminhão do exército passava cheio de caixões dentro. Isso foi bem triste, há muita gente morrendo por conta do vírus, hoje bem menos, mas, antes eram muitas mortes nas regiões próximas”.

Ernany Vieira

Sabemos que o atual momento exige prevenção e atenção aos cuidados do Covid-19. O vírus infelizmente nos atacou em cheio, influenciando na rotina de nossas vidas. Na edição desta semana, nossa coluna Papo Jovem da Folha do Vale entrevista o braçonortense Ernany Vieira que há 5 meses vive na Itália, mais precisamente na cidade de Delébio, na região da Lombardia, local que por semanas foi o mais afetado pelo coronavírus no mundo.

Como está sendo enfrentar essa pandemia longe do país, da família e das pessoas próximas?

Ernany Vieira – O melhor seria enfrentar o vírus perto da família, pois, acontecendo algo tanto comigo como meus entes queridos, eu iria estar perto deles e o acesso a tudo seria mais fácil. Aqui na Itália estou sozinho e por conta disso, essa situação se torna bem difícil, imagina se eu tivesse contaminado com o vírus, estaria só e enfrentando um serviço que, no momento, está bem crítico devido à alta demanda nos hospitais pela pandemia. Estou tendo contato com a minha família frequentemente, conversamos por whatsapp praticamente todos os dias. Estou levando essa situação assim no ficar longe e mantendo todo cuidado.

Sabemos que a Itália já foi, até bem poucos dias atrás, o principal foco do Covid-19 no mundo, como foram às medidas adotadas no país?

Ernany Vieira – No meu ver o motivo da Itália ter se transformado no principal foco no mundo foi a demora do governo em tomar as atitudes severas. As medidas se iniciaram em 9 de março, as quais se mantiveram até 4 de maio com a quarentena. Nesse período, para sairmos de casa era necessário um documento impresso informando o local de destino, horário, nome, códigos… Só podíamos nos dirigir a hospitais, farmácias e supermercados. Não podia sair de casa para nada, nem ir em frente de casa era possível. Se eu insistisse em sair de casa sem o documento e a polícia me parasse, eu receberia uma multa e de repente poderia inclusive ser detido. O isolamento foi bem rígido.

O governo do Brasil tem se comunicado com os brasileiros na Itália, ele tem feito algo?

Ernany Vieira – Falando por mim e pelos brasileiros que conheço que estão em outras regiões da Itália, o governo não entrou em contato, não houve nada, porém não vou generalizar o tema, se entrou ou não para uma ajuda ou ainda a questão da possível volta ao Brasil. Pelo meu conhecimento, não.

Em relação às medidas adotadas no Brasil como você avalia com a realidade enfrentada na Itália?

Ernany Vieira – Então, é complicado você comparar uma realidade de um país com outro. O Brasil é um país muito grande tanto territorial como populacional. Quando soube que o Governo do Estado adotou o isolamento, por uns 15 dias, na minha visão pelo que passo por aqui, penso que foi bom, porém já imaginava o quanto seria difícil segurar essa quarentena por muito tempo até pelas questões econômicas. Isso tem que ser levado em conta se compararmos a Itália e o Brasil. Aqui o governo ajuda as pessoas com bônus para a compra de alimentos com um vale através de um cadastro, sei que no Brasil houve um auxílio do governo, mas mesmo assim, é bem diferente. Há setores que voltaram dia 4 de maio, mas outros que não voltaram ainda, e estão prestes a completar três meses fechados. As pessoas estão se virando aqui mais facilmente, no Brasil eu não consigo enxergar isso. Eu entendo que a quarentena foi boa no Brasil, mas, se olharmos a economia isso muda completamente.

Como acompanhamos no Brasil, a Itália ficou praticamente dois meses de isolamento social, como foram esses dias “em casa” aplicadas as restrições do governo, e agora a vida com o pós-isolamento?

Ernany Vieira – Não é nada fácil ficar dois meses trancados dentro de casa, visualizando a varanda do apartamento como rua. É uma situação que você fica sem saber o que fazer, com as mãos atadas, só esperando o tempo passar, pensando que as coisas vão melhorar. Graças a Deus estão melhorando a passos lentos, mas, melhorando. Tem que ter muita paciência, foram dois meses de internet, Netflix, lendo livros, enfim, ocupando o tempo. Foram momentos que depois que saímos da quarentena, para caminhar, ir no parque, andar de bicicleta, que me fizeram refletir a dar valor a liberdade, muito mesmo. O isolamento me trouxe um grande aprendizado para a vida, nas coisas que antes não dava tanta importância e valor no dia a dia. Agora valorizo muito isso.

Em relação as dificuldades enfrentadas em um país que foi o pico do coronavírus no mundo, qual a sua mensagem ao Brasil e aos amigos que aqui estão?

Ernany Vieira – A mensagem que deixo aos meus amigos, familiares e as pessoas é que respeitem o máximo esse vírus porque a coisa é realmente séria, muitas pessoas morreram aqui. Onde vivo tem uma foto bem emblemática que circula mundo a fora, quando o caminhão do exército passava cheio de caixões dentro. Isso foi bem triste, há muita gente morrendo por conta do vírus, hoje bem menos, mas, antes eram muitas mortes nas regiões próximas. O recado que deixo é que depois que essa pandemia passar, é que as pessoas podem ser melhores, que possam dar valor ao que realmente vale a pena, valorizando as pessoas próximas. Sei o quanto está sendo e ainda vai ser difícil a situação toda, mas, as pessoas se ajudando, as coisas tendem a melhorar mais rapidamente. Desejo boa sorte e saúde a todos, não deixo de pensar em nenhum momento nas pessoas queridas que estão aí. Quero também que o nosso país se recupere o quanto antes disso tudo.


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