Rodovias Estaduais pedem socorro

Má conservação pode ser causa de acidentes registrados semanalmente, alguns, inclusive, com vítimas

A situação das rodovias estaduais de Santa Catarina causa preocupação. Em trechos da SC-370, entre Braço do Norte a Tubarão e SC-108 entre Braço do Norte e Rio Fortuna o asfalto parece derreter. As placas de sinalização estão tomadas pelo mato – dificultando a condução do motorista – e os buracos na extensão da pista assustam.

Usuário da SC-370, trecho que liga Tubarão à cidade de Gravatal, Jhony de Mello, 23 anos, que atuou como motorista de transportadora e trafegava no trecho diariamente para realizar suas entregas, avalia como arriscado dirigir neste trecho. Segundo ele, o acesso oferece riscos aos motoristas. “Eu sempre trabalhei como motorista, mas dentro da cidade. Quando comecei a fazer entregas para a transportadora eu vi a dificuldade que é passar pela SC-370. Nos dias de chuva, à noite, é pior ainda. A atenção triplica. O desnível do asfalto é um risco para quem dirige. Dependendo da velocidade o perigo é constante”, avalia.
No entanto, o problema com as rodovias estaduais não é uma novidade. Em julho de 2016, diante do clamor da população e também das autoridades locais, o então governador de Santa Catarina, Raimundo Colombo (PSD), atendeu um pleito de mais de 10 anos e revitalizou quase 40 quilômetros de pista asfáltica entre Tubarão e São Ludgero. Um investimento de mais de R$ 13 milhões.
Investimento que põe em cheque a qualidade do serviço concretizado. Visto que às vésperas de completar três anos desde a entrega da obra o trecho já apresenta problemas. “Não deu nem dois anos que o Colombo esteve aqui inaugurando a estrada e ela já estava toda ‘murcha’,” recorda o gravatalense Waldir dos Santos, 73, aposentado.

Problemas na composição do asfalto e excesso de peso prejudicam rodovia

A Secretaria de Infraestrutura do Estado pontua que tem conhecimento das patologias nas rodovias locais e garante que têm estudado possibilidades de reparar a situação. “Esse fenômeno é chamado de exsudação e ocorre por excesso de ligante betuminoso na constituição do pavimento”, diz a assessoria da pasta por nota enviada a nossa reportagem. Outro fator que contribui para os danos apresentados nas pistas, além dos problemas estruturais, pode ser o excesso de carga dos veículos. Em Santa Catarina, o limite padrão é de 8,7 toneladas por eixo de veículo.

Como não existem balanças nesses trechos, a fiscalização dos veículos é realizada pelo peso bruto total de carga com base nas notas fiscais, reconhecimento de carga ou ticket de balança. “Quando o condutor não apresenta esses documentos, é chamado a Receita Estadual para que faça a fiscalização de sonegação”, explica o comandante da Polícia Rodoviária Militar de Gravatal, subtenente Marcos Soares Pereira. Ainda de acordo com o militar, oito equipamentos de fiscalização estão sendo adquiridos pelo Estado e pelo menos um deles deve ser instalado na região.
Entre as extensões que apresentam problemas na SC-370, de Tubarão a Gravatal e de Gravatal a Braço do Norte. Desses locais, o Bairro Travessão, em Braço do Norte, e o bairro São Martinho, em Tubarão chamam a atenção. Os dois trechos, até 2011, eram os que mais somavam acidentes com vítimas fatais, colocando a SC-370 entre as mais perigosas do Estado. Ainda na SC-108 é o trecho entre Braço do Norte a Santa Rosa de Lima, acentuando-se com maior gravidade entre Braço do Norte e Rio Fortuna.
Entretanto, segundo o comandante da Polícia Rodoviária Militar de Gravatal, subtenente Marcos Soares Pereira, o índice de acidentes tem diminuído nos últimos meses. “Estamos com efetivo reduzido, mas fazendo uma fiscalização bem feita e, com isso, conseguimos reduzir os números de acidentes”, garante.
Segundo o levantamento da Polícia Rodoviária Militar de Gravatal, fornecido com exclusividade à reportagem da Folha do Vale, de 01 de janeiro a 17 de junho foram contabilizados oito acidentes com 11 feridos no trecho que liga Braço do Norte à Santa Rosa de Lima, na SC-108. No ano passado foram nove acidentes e sete feridos no mesmo período. Até o fechamento desta matéria, nenhuma morte havia sido registrada no trecho.
Até o momento, o trecho que mais registrou ocorrências foi a SC-370 que liga Gravatal à Tubarão. Foram 39 acidentes com 14 feridos. No ano passado foram 47 acidentes, 23 feridos e uma pessoa falecida. Já a pista da SC-370 que liga os municípios de Gravatal e Braço do Norte soma 40 acidentes, 29 feridos e uma morte. Em 2018, foram 55 acidentes, 42 pessoas ficaram feridas e uma morte foi registrada.
A morte acima foi registrada na sexta-feira, 14 de junho. De acordo com o Corpo de Bombeiros, Rosilene Ouriques, 37, faleceu em decorrência de uma parada cardiorrespiratória – motivada pelo acidente – enquanto era transportada ao Hospital Nossa Senhora da Conceição, em Tubarão. Três carros, uma motocicleta e um caminhão se envolveram na colisão.

Situação preocupa dirigentes e entidades

A preocupação com a situação das SC-108 e SC-370 também é lamentada pelo diretor-presidente da Associação Empresarial do Vale de Braço do Norte (Acivale), Roberto Michels, que defende um planejamento contínuo para reparo das rodovias. “Os acostamentos ao longo dos trechos mencionados na reportagem também causam preocupação. A grande quantidade de mato nesses locais deixa o condutor em alerta, já que a vegetação esconde as placas de trânsito e invade o espaço dos pedestres”, alerta o presidente.

Em Braço do Norte, o prefeito Beto Marcelino (PSD), destaca que embora seja uma responsabilidade do Estado, não tinha como deixar alguns trechos como estavam, por isso, realocou uma equipe de manutenção contratada do município para fazer uma limpeza estratégica. Beto, que é presidente da Associação dos Municípios da Região de Laguna (Amurel), lembra que não é a primeira vez que o município tem essa iniciativa. “Pois o Estado parece se omitir a manutenção”, mas garante, “não haverá ônus à cidade e, enquanto esse tipo de manutenção for de responsabilidade do Estado, somente limpezas pontuais que ofereçam riscos à população serão realizadas”, acrescenta.
No último sábado, 15, os moradores dos municípios de Santa Rosa de Lima e Rio Fortuna realizaram um mutirão de limpeza em parceria com as prefeituras para também sanar o problema de excesso de vegetação ao longo da SC-108. De acordo com os gestores das duas cidades, Lindomar Ballmann (PSB) e Salésio Wiemes (PT), essa foi uma alternativa rápida e econômica para amenizar os problemas ocasionados pela vegetação na SC.

Estado diz que rodovias recebem manutenção seguindo cronograma

Em contato com a Secretaria de Estado da Infraestrutura, a assessoria de comunicação da pasta se limitou em dizer que “a manutenção das rodovias estaduais está sendo realizada conforme planejamento de prioridades” e que “as rodovias em questão recebem manutenção rotineira conforme cronograma da Superintendência Regional Sul”. Todavia, nenhuma rodovia da região foi roçada, ou recebeu uma operação padrão de tapa-buracos durante os primeiros seis meses de 2019.
No ano passado, em dezembro, o Tribunal de Contas do Estado (TCE) chegou a anunciar um laboratório para análise de obras rodoviárias que iria detalhar, entre outros quesitos, a espessura do asfalto, a qualidade dos materiais utilizados e as condições do solo onde foi feita a pavimentação. Segundo a apuração, não foi realizado nenhum estudo referente às rodovias estaduais.

Consórcio para resolver o impasse

Afim de resolver esse impasse, a atual gestão do Estado de Santa Catarina, comandada pelo Governador Carlos Moisés (PSL), propôs recentemente, criar consórcios regionais para a instalação de usinas de asfaltos para os municípios manterem ruas, estradas e rodovias em boas condições.

A ideia inicial prevê o financiamento do Estado para colocar essas usinas em funcionamento e dentro desse pacote de incentivo estaria à isenção da matéria-prima para manutenção. Com isso, esses consórcios intermunicipais fariam a manutenção, além das ruas de seus municípios, de rodovias estaduais. No entanto, toda mão de obra para manter o funcionamento da usina ficaria por conta das prefeituras.
Em abril, um diagnóstico feito pela Federação Catarinense de Municípios (Fecam) sobre a situação das estradas mostrou que na Amurel, das rodovias pavimentadas, 39,02% das pistas de rolamento são consideradas razoáveis quanto ao estado de conservação; 35,16% apresentam danificações; e apenas 24,35% são consideradas em bom estado de conservação.
O presidente da Fecam e também prefeito da cidade de Tubarão, Joares Ponticelli (Progressistas) acredita que mais de 70% das rodovias estaduais estão danificadas ou em péssimo estado. De acordo com o planejamento do Governo do Estado, pelo menos R$ 74 milhões devem ser aplicados em um Fundo de Infraestrutura nesse modelo, a partir deste mês.

Nova rodovia

A previsão é que até o final de julho o Governo do Estado inaugure a rodovia Ivane Fretta Moreira, em Tubarão, ligando a SC-370 a BR-101. A estrada tem 4,5 quilômetros de extensão, com quatro faixas de rolamento de 3,5 metros cada; ciclovia nos dois lados da pista, com 2,5 metros; além de canteiro central; trevos; e uma ponte de 60 metros de comprimento; além de uma passarela estaiada. A rodovia será uma nova ligação da região central de Tubarão e da BR-101, com a comunidade de São Martinho e o Vale do Rio Braço do Norte.


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