O caos da pandemia como catalisador de sonhos

Artigo de Yan Teixeira

teixeira.yannn@gmail.com

Era manhã de quarta-feira. Confesso que até a noite anterior não compreendia um centésimo do que era a conjuntura que se espalhava pelo mundo. Uma pandemia global. Até aquele momento, parece que a situação em si não conquistava a minha atenção o suficiente para sentar, refletir e ver o impacto real disso tudo.

Comecei o dia esperando o Uber chegar olhando para aquela cena incomum das ruas desertas na cidade. Eis que de longe vem vindo um carro solitário com a placa a qual o aplicativo já tinha me avisado que viria me buscar. Entrei no carro e um álcool em gel foi empurrado em minha direção, antes mesmo de ver o rosto do motorista. Depois de passar o venerável produto do momento, sentei e olhei pro motorista. O mesmo, estava com um olhar aéreo, como se estivéssemos vivendo em um universo paralelo. Daqueles olhares de quem está processando uma nova realidade, que não sabe se se desespera para entendê-la ou aceita a aflição da incompreensão. Um minuto de silêncio constrangedor se passa e, da minha garganta, sai aquela voz meio falha e involuntária: ‘cidade tá vazia né’. Pronto, quebra gelo feito, e o motorista desembesta a partilhar o que ele tá achando disso tudo, os grandes perigos que corremos e a me atualizar com as notícias mais atualizadas.

Na noite anterior, tive o primeiro choque de realidade. Em um reencontro de amigos vi que era impossível não falar no tema do momento. Éramos praticamente os únicos do bar, porque as pessoas já não saíam mais de casa, e, cada tentativa de desviar do assunto era suprimida por uma nova confabulação futurística do que seriam os próximos dias, ou uma maneira inédita de como usar álcool em gel. Até aí, pensava que o tal vírus seria um daqueles temas para causar polêmica na conversa de trabalho, ou nos almoços de família. Porém, os números de expansão do vírus e os decretos apresentados pelo governo, naquele mesmo dia, mostravam que o buraco era bem mais embaixo.

De volta pro Uber, ouvindo o motorista, eu estava processando as novas informações e ainda digerindo a noite anterior, não a janta, a conversa mesmo. Pensei comigo: ‘tá todo mundo em desespero e com medo’. Lembrei do pouco que sei da história da humanidade e as coisas assustadoras que aconteceram quando o motivador das ações era o medo. Antes de sair do Uber fiz questão de sair dizendo ‘é, a situação tá braba, mas não vamos deixar a peteca cair, vamos manter o alto astral que temos força para dar um jeito na situação’.

Ali mesmo, naquelas primeiras horas de contato e processamento da real situação que se passava, eu enxerguei a minha incumbência nesse momento do Planeta: ‘Apresentar uma perspectiva que mantenha as pessoas com otimismo e esperança de dias que virão, a partir de uma visão de um mundo que podemos sonhar juntos.’ Eu vislumbro que grandes episódios como esse, têm potencial catalisador de grandes transformações. Minha responsabilidade é alimentar esse sonho de que a transformação que se dará, seja positiva.


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