Menina milagreira completa 100 anos

Novembro de 2019 é marcado pelo centenário do nascimento de Cecília Roveda, criança tida como santa

Quando tinha quatro anos de idade, Adrieli, filha Luzia Ascari Salvalagio e José Salvalagio, foi diagnosticada com uma grave doença no coração. Precisava com urgência de uma cirurgia. No dia em que a operação seria agendada, Luzia não obteve êxito devido as cotas para o procedimento já estarem preenchidas. Dias depois, a mãe buscou novamente agendar a operação. Refizeram os exames médicos para o procedimento e, quando chegou ao consultório médico para marcar a data, perceberam que o coração de Adrieli estava perfeitamente normal. E hoje, aos 16 anos, a jovem segue uma vida perfeitamente saudável.
A melhora repentina de Adrieli é atribuída à intercessão de Cecília Roveda, a “Menina de Furninhas”, que morreu de forma violenta, assassinada, em 1931 e é tida como santa por muitos. Neste mês de novembro, mais precisamente no último dia 3, completou-se 100 anos de seu nascimento. “Minha filha tinha um sopro no coração e precisava de fazer a cirurgia. Mas ela melhorou sem explicação. Não tenho dúvidas de que foi com a intercessão da Menina Cecília. E nem foi tanto por nós. Acredito que foi a própria fé da minha filha, que acreditava muito na santidade de Cecília, que fez com que ela melhorasse”, afirma Luzia.
O relato de Luzia é somente um exemplo das dezenas de casos e de pessoas que afirmam ter alcançado alguma graça por intermédio de Cecília. Luzia, 48 anos, e o marido José, 56, mais conhecido por Zeca, são agricultores. Nasceram e cresceram em Furninhas, uma comunidade limítrofe de três municípios: Orleans, Grão-Pará e Braço do Norte. O casal é ferrenho entusiasta da santidade de Cecília Roveda, mesmo que isso ainda não tenha sido reconhecido oficialmente pela Igreja Católica.

Luzia e Zeca acreditam no milagre que salvou a filha do casal

 

A “Menina de Furninhas”, como é costumeiramente chamada por seus devotos, passou toda a sua breve vida na localidade. Aos 11 anos, no dia 26 de fevereiro de 1931, foi estuprada e morta por Valdivino João Thomaz, quando voltava para casa da escola. O assassino era conhecido de Cecília e a convenceu a adentrar na mata para colher bacupari, uma fruta nativa da região. Sua intenção, na verdade, era outra. Segundo relatos, ela lutou com todas a suas forças, mas não consegui evitar que fosse violentada. Depois disso, disse ao seu algoz que contaria a todos o que teria ocorrido. Foi quando o homem resolveu acabar com a vida da menina.
Dias depois, após investigações por parte da autoridade policial da Comarca de Tubarão, vários indícios apontavam Valdivino como principal suspeito. Ele acabou confessando e afirmou ter cometido o crime porque queria se vingar do pai da Cecília. Ele não permitia que o Valdivino se relacionasse com a irmã mais velha da vítima.
Cecília Roveda foi sepultada no cemitério da comunidade, nos fundos da Capela de São José. Seu túmulo, assim como o de seus pais, se encontram lá até dos dias de hoje. Há também um pequeno mausoléu, onde os fiéis depositam placas e itens relacionados a graças alcançadas. “Vem gente de longe. De outras regiões, de outros Estados, para agradecer à alguma ajuda que tenha recebido da Menina Cecília”, conta Luzia.
Próximo a este local a comunidade construiu um capitel em homenagem à Cecília. Naquele lugar, supostamente, teria ocorrido seu assassinato. A área, que conta também com um pavilhão coberto e estrutura para eventos, pertencia a descendentes da menina. “Na nossa família, ela sempre é lembrada como uma santa. Um menina muito boa, amiga de todos, boa filha e que sofreu muito na hora da sua morte. Sempre acreditamos nisso”, lembra o agricultor Jenilton Roveda, sobrinho-neto de Cecília. Foi ele quem cedeu parte da sua propriedade para construir a estrutura e, ainda hoje, ajuda a manter o local.

Apesar do grande número de seguidores, não há, até o momento, expectativa de que a Menina de Furninhas passe por um processo de beatificação, como ocorreu com Albertina Berkenbrock, de Imaruí. As duas têm histórias muito parecidas. Coincidentemente, ambas nasceram e foram mortas nos mesmos anos. A diferença é que Albertina teria conseguido resistir ao estupro, manteve-se casta, e morreu por isso. “A Menina Cecília não teria condições de evitar o que aconteceu com ela, já que era pequenina, franzina. Dizem que não pesava mais que 30 quilos. Mas, para mim, isso não importa. Cecília é uma santa”, garante Luzia.


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