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Gravatalense vive a explosão em Beirute

Residência de Luiz Felipe Czarnobai fica na zona portuária da cidade, a um quilômetro do local atingido. O clima é de tensão no país

Era o fim de tarde de terça-feira, 4 de agosto, e o pequeno Gustavo, de 9 anos, observava o mar de Beirute, capital do Líbano, da janela do 21º andar do prédio em que mora com os pais, o gravatalense e chanceler Luiz Felipe Czarnobai e Alécio Guimarães, oficial de chancelaria do Ministério das Relações Exteriores (Itamaraty). “Olha a fumaça rosa, papai”.

Alécio, o gravatalense Luiz Felipe e filhos antes da explosão


Não deu tempo, um clarão surgiu e Luiz Felipe só teve tempo de gritar para a babá, Welet Tekle, agarrar o garoto. Correram para os outros cômodos, pegaram os outros meninos e esconderam-se debaixo de uma cama. Trêmulo, ele conseguiu deixar uma mensagem no grupo da família: “Houve uma explosão. Pode ter sido uma bomba, mas estamos todos bem”.
Em Gravatal, a mãe de Luiz Felipe, a ex-secretária Municipal de Educação Rosane Aparecida Pacheco Czarnobai, fazia suas orações da manhã. É costume conferir o aplicativo de mensagem, mas não deu atenção naquele momento.


Minutos depois o telefone toca e era sua filha. “Nem disse alô, já perguntei o que era. Ela falou da explosão. Liguei o televisor e fiquei mais desesperada ainda. Tentava ligar e não conseguia falar com ele”, relembra com a voz embargada.


Rosane retornou do Líbano há cerca de um mês. Foi visitar o filho, o genro e os netinhos em março. Ficou até julho, pois as fronteiras fecharam por conta da pandemia do novo coronavírus. “Para mim, foi um milagre, pois nos fins de tarde todos vão para a sala. É um momento deles com os filhos. Deus intercedeu pela minha família. Alécio estava na academia e foi o único que saiu ileso. Teve um arranhão na mão. Todos os outros que estavam lá precisaram de atendimento médico. Se isso não é milagre, não sei o que é!”, respira agradecida.

Ruas próximas da residência de Felipe minutos após o incidente – as fotos foram feitas pelo marido no caminho da academia até o apartamento


O gravatalense e a sua família residem a pouco mais de um quilômetro do local da explosão. Apenas dois quartos ficaram intactos. Nos outros, os vidros quebraram, janelas e portas arrancadas.

Foto mostra como ficou o apartamento do chanceler e a área portuária atingida pela explosão


Sem condições de ficar em casa com três crianças pequenas – os meninos têm nove, sete e quatro anos -, eles passarão os próximos dias hospedados na casa de uma amiga da família, distante 15 minutos da área urbana de Beirute.


Ainda atordoado com o que ocorreu, Luiz Felipe explica que a situação em Beirute é tensa e até o momento o governo libanês não fez um pronunciamento oficial. “Depois que o susto passou, soubemos que havia sido um armazém de carga que explodiu no porto. A movimentação policial ainda é grande pela cidade, pois a área atingida é imensa e ainda há pessoas nos escombros”, detalha.

Foto de antes da explosão, feita da sacada do apartamento de Luiz Felipe, mostra como era a área portuária do Beirute. No fundo, os galpões brancos onde ocorreu estava o composto que explodiu

Transferência

A noite de terça-feira seria de celebração na residência da família do gravatalense Luiz Felipe Czarnobai. Horas antes do incidente, ele e o marido haviam recebido a notícia do Itamaraty de que foram transferidos no Líbano para Mumbai, uma das maiores e mais importantes cidades da Índia.
A mudança deve ocorrer em setembro. Luiz Felipe esperava Alécio chegar em casa para comemorarem, ligarem para as famílias no Brasil e contar para os filhos da nova aventura.

O que se sabe até agora?

As causas da explosão que devastou a área portuária de Beirute ainda não foram esclarecidas. A Agência Nacional de Notícias do Líbano informou nesta quinta-feira que antes da explosão ocorreu um incêndio em um depósito de nitrato de amônio no porto.

O composto é geralmente utilizado em fertilizantes. Conforme pronunciamento do primeiro-ministro do país, Hassan Diab, na quarta-feira, 2.750 toneladas da substância estavam armazenadas dentro do porto há seis anos sem as medidas de precaução necessárias.

As autoridades libanesas averíguam se o episódio foi de fato um acidente ou um atentado terrorista. A expectativa é que os primeiros resultados de uma investigação sejam divulgados nos próximos cinco dias.

A tragédia deixou mais de 130 mortos, 5 mil feridos e 100 desaparecidos, segundo estimativa da Cruz Vermelha libanesa até a manhã desta quinta-feira.

As principais ruas do centro da cidade ainda estão cheias de escombros, com as fachadas dos edifícios destruídas e veículos danificados. Imagens de drones mostram que a explosão atingiu silos de trigo que ficavam no porto.

Estimativas iniciais do governo libanês indicam que cerca de 85% dos grãos do país, que são majoritariamente importados, estavam armazenados nos armazéns que foram destruídos.

No Brasil, o Itamaraty emitiu uma nota de solidariedade e confirmou que não há brasileiros gravemente feridos ou mortos.

“O Ministério das Relações Exteriores acompanha com atenção os acontecimentos na cidade e está pronto para prestar a assistência consular cabível. Não há, até o momento, notícia de cidadãos brasileiros mortos ou gravemente feridos”, diz a nota.

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Folha do Vale