quarta-feira, janeiro 27Diário online de Braço do Norte

Grão-Pará tem a melhor cachaça do mundo

Bebida produzida no Rio Pequeno, em Grão-Pará, ganha reconhecimento internacional

Em 2007, Valdemir Borghezan foi demitido de uma fábrica em que trabalhava, em Braço do Norte. Apesar da situação desfavorável, foi a oportunidade que ele esperava para pôr em prática um projeto que já tinha em mente há alguns anos: investir em um negócio próprio. Por meio de um estudo de mercado e com a ajuda de cursos oferecidos pela Epagri (Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina) passou a se dedicar à produção de cachaça artesanal. Em 2008, criou o Engenho Borghezan, alambique hoje sediado na comunidade de Rio Pequeno, em Grão-Pará, e desenvolveu a Tajuva, uma aguardente de melado armazenada em barril feito com madeira de mesmo nome. A bebida fez sucesso e, em novembro de 2020, conquistou reconhecimento internacional ao vencer 27ª edição do Concurso Mundial de Bruxelas, capital da Bélgica.


A cachaça produzida por Valdemir, 46 anos, ganhou a medalha de ouro na categoria ‘não-envelhecida’ da competição, que contou com a participação total de mais de 1,4 mil rótulos. “Ter vencido esse prêmio tem causado uma repercussão que, de certa forma, eu não esperava. Está havendo uma procura muito grande pelos nossos produtos, o que é uma coisa muito boa. Resultado da dedicação que a gente faz para ter um produto de qualidade, que oferece uma experiência diferenciada para quem está degustando”, destaca Borghezan.


Segundo o seu criador, a Tajuva é uma cachaça leve, de sabor agradável. O fato de ser armazenada em um barril de madeira suaviza o seu gosto e dá um tom levemente adocicado à bebida. “Para criar esta cachaça, meu objetivo foi garantir que ela descansasse em um barril feito com madeira na nossa região. Fui experimentando vários tipos, até que cheguei à tajuva, que deu um resultado muito bom. Desde então, este rótulo tem sido um dos diferenciais do nosso engenho”, descreve. A madeira que também é conhecida como taiúva, é usada tradicionalmente na marcenaria.

Uma “bronca” que deu certo

Embora Valdemir Borghezan já fabricasse sua Tajuva desde 2008, foi somente em 2017 que seu alambique foi regularizado e os rótulos por ele produzidos puderam alcançar outras praças fora do Vale do Braço do Norte. Até então, Engenho Borghezan atuava na informalidade. A situação mudou quando empreendimento recebeu a visita dos fiscais do MAPA (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento). “Os agentes do MAPA me obrigaram a regularizar. Na época, achei que estaria tudo acabado, que não valeria a pena o investimento. Mas, na realidade, foi uma coisa boa. Graças a isso, consegui registrar os meus rótulos e, então, participar de concursos de degustação. Posso dizer para todo mundo agora que fabrico cachaças premiadas”, celebra o produtor.


Com os resultados, Borghezan já traça planos. Um deles é de melhorar as acomodações da fábrica para melhor receber os visitantes. Localizado às margens da rodovia SC-370, entre Grão-Pará e Braço do Norte, o Engenho recebe muitos turistas que passam pela região. “Fazemos até mesmo visitas guiadas, em que um grupo de aproximadamente 20 pessoas agenda conosco e pode conhecer todo o processo de fabricação da cachaça. E, para receber melhor esses turistas, estou pesando em construir uma área melhorada para recepção e degustação dos nossos rótulos”, estuda.

“Também estamos em negociação para fabricarmos o que chamados de ‘rótulos ciganos’. São receitas e marcas criadas por pessoas que não possuem seu próprio alambique. Nesses casos, eles podem fabricar a sua bebida em alambiques já regularizados, como o nosso”, garante Valdemir.
O produtor de cachaça artesanal Valdemir Borghezan afirma que grande parte no sucesso dos alambiques da região se devem à participação da Epagri. O trabalho desenvolvido Estação Experimental da Epagri em Urussanga (EEUR) partiu da avaliação de cultivares de cana-de-açúcar para recomendação de plantio no estado, inclusive fornecendo mudas aos interessados.


A unidade de pesquisa também possui um laboratório para análise dos destilados em diferentes processos da produção. Ali são avaliados parâmetros norteadores da qualidade da bebida, como grau alcoólico, acidez volátil, ésteres, aldeídos, cobre, entre outros. “Esses dados são fundamentais para ajustar a produção à qualidade desejada”, explica o pesquisador Stevan Arcari, responsável técnico pelo laboratório de bebidas da EEUR.


O coordenador do Programa Gestão de Negócios e Mercados da Epagri no Sul Catarinense, Marcelo Pedroso, afirma que é um orgulho para Empresa ter participado dessa conquista, visto que ela é parceira dos agricultores no que diz respeito à legalização dos alambiques e das unidades engarrafadoras, à capacitação para boas práticas para a produção de uma cachaça de qualidade e ao apoio na comercialização.

Rótulos da região também são premiados

A participação da competição foi uma articulação da Acapacq (Associação Catarinense dos Produtores Artesanais de Aguardente e Cachaça de Qualidade), que estimulou aos seus associados a enviarem amostras de seus rótulos. O envio ocorreu em junho, sendo o resultado divulgado somente agora, no final do ano. São três tipos de prêmios: grandes medalhas de ouro, medalhas de ouro e medalhas de prata.


Dos 24 alambiques catarinenses que participaram do concurso, 12 ganharam medalhas. Muitos dos rótulos vencedores são produzidas no Sul do Estado. Além do Engenho Borghezan, também de destacou a Cachaça Imigrante, de produtores de Pedras Grandes, premiados com prata. A Cafundó da Serra, de Lauro Müller, também teve um rótulo premiado com ouro.

Confundó da Serra, de Lauro Müller, também de destacou na competição


“Isso é uma demonstração da qualidade da cachaça catarinense. Só nós temos uma bebida assim. Somente uma aguardente diferenciada consegue agregar valor, se destacar no mercado e, assim, obter lucratividade para o seu produto. Para se ter uma ideia, em São Paulo, as pessoas costumam reclamar dos preços das cachaças de Santa Catarina. Mesmo assim, são as mais procuradas”, defende Valdemir.

Participação dos alambiques viabilizada pelo Sebrae

A participação dos empreendimentos desses agricultores familiares no concurso realizado em Bruxelas, assim como na Expocachaça deste ano, competição que ocorre em Belo Horizonte (MG), foi articulado pela Acapacq, que a dentro do projeto de fortalecimento e desenvolvimento da cachaça catarinense, recebeu recursos do Sebrae para que os associados pudessem promover as bebidas do estado. O concurso de Bruxelas foi uma dessas iniciativas, que teve o Sebrae à frente para viabilizar toda a burocracia.

SANTA CATARINA é o primeiro estado que teve essa cultura de produzir e armazenar cachaça em barris de madeira


“Com o resultado da Expocachaça, podemos dizer que Santa Catarina está entre os estados com as melhores cachaças do Brasil. Com as premiações em Bruxelas, podemos afirmar que temos as melhores cachaças do mundo”, diz o presidente da Acapacq, Leandro Melo. Ele afirma que o estado tem joias escondidas durante muitos anos e que agora estão aparecendo.
Para ele, Santa Catarina tem algumas peculiaridades que favorecem a produção de destilados diferenciados. “Temos uma variedade de clima e solo, contamos com descendentes de imigrantes de diferentes etnias com um modo único de saber fazer e nossos cultivos possuem rígido controle fitossanitário, assim como as unidades produtoras. Além disso, contamos com um fato histórico: fomos o primeiro estado que teve essa cultura de produzir e armazenar cachaça em barris de madeira, diferente dos outros estados”, diz Leandro.

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Folha do Vale