terça-feira, janeiro 26Diário online de Braço do Norte

Fim do mistério: Sementes contêm pragas ainda inexistentes no Brasil

Ministério da Agricultura divulgou resultado de análises laboratoriais das sementes que chegaram também em Braço do Norte

Durante o ano de 2020, um “mistério” tem tomou conta do País. Compradores on-line de produtos oriundos da Ásia subitamente passaram a receber, sem terem efetuado qualquer pedido, pacotinhos com sementes variadas de plantas desconhecidas.

No princípio, ninguém soube explicar o motivo. A situação ficou ainda mais intrigante quando, após análises laboratoriais, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) informou que as sementes poderiam conter ácaros, fungos e serem até de plantas daninhas. Pelo menos em 24 estados tiveram o registro dessa estranha ocorrência, inclusive em Santa Catarina.

Toni, de Braço do Norte, comprou pinos para relógios e com eles recebeu o pacote de sementes

Em Braço do Norte, o empresário e relojoeiro Antônio Fernandes, o “Toni”, foi uma das pessoas que recebeu o curioso produto. “Eu estava precisando de pinos para relógio que são mais difíceis de encontrar no Brasil. Foi meu filho que achou esse material à venda na internet. A compra foi feita no final do ano passado [2019] e o produto chegou no início do ano. Com ele vieram as sementes. Achei que fosse algum tipo de brinde”, recordou ele à reportagem da Folha do Vale em setembro de 2020.

Com o tempo, Toni diz que até acabou esquecendo as sementes, que ficaram guardadas até ver as notícias a respeito destes envios não solicitados por todo o país. “Foi coincidência eu ter guardado essas sementes. Nesse meio tempo, eu perdi meu filho em um acidente de bicicleta. Com a cabeça confusa, não pensei mais nelas. Quando começaram a aparecer as notícias, foi que a minha filha, em agosto, pegou as sementes e levou até o escritório da Cidasc de Braço do Norte”, revela.

Há poucos dias o MAPA divulgou os resultados finais de uma parte das amostras enviadas para o órgão. A apuração apontou que a preocupação apresentada no início do caso faz sentido. Na avaliação de risco fitossanitário realizada pela área técnica do Departamento de Sanidade Vegetal e Insumos Agrícolas do Ministério, foi identificado que uma amostra continha a espécie Myosoton aquaticum, praga ausente no Brasil e com potencial para ser considerada quarentenária, ou seja, com risco de estabelecimento no país e de causar danos fitossanitários. Essa espécie apresenta resistência a herbicidas, o que torna seu controle difícil. A introdução dessa planta daninha no país pode ter impacto econômico negativo.

Em outras amostras foram identificadas uma espécie quarentenária ausente – Descurainia sophia – considerada como planta daninha nos Estados Unidos e Canadá, além de planta invasora no México, Japão, Coreia, Chile e Austrália. Já a Myosoton aquaticum é considerada daninha nos campos de trigo da China. Outras 15 amostras continham gêneros que tem espécies quarentenárias ou espécies com potencial quarentenário, como sementes de Cuscuta; de Brassica; de Chenopodium; de Amaranthus; e dos fungos Cladosporium; Alternaria; Fusarium; e Bipolaris.

“Após análises laboratoriais, pode-se avaliar que a introdução de material propagação (sementes ou mudas), mesmo em pequenas quantidades, sem atender aos requisitos fitossanitários e de qualidade estabelecidos pelo Mapa, coloca em risco a agricultura brasileira”, ressalta o diretor do Departamento de Sanidade Vegetal e Insumos Agrícolas, Carlos Goulart.

Onde levar as sementes

Quando alguém ainda receba novas sementes sem solicitações, tanto a Cidasc quanto a Secretaria Municipal de Agricultura são os órgãos que devem ser procurados nestes casos. Em nenhuma hipótese devem ser guardadas, muito menos plantadas. Uma vez levada à Secretaria ou a Cidasc, as sementes são encaminhadas para o Ministério de Agricultura, que monitora o caso e dá a destinação correta.

Fraude de vendas

Os casos não ocorreram apenas no Brasil. Há relatos de envio de sementes também nos Estados Unidos, Canadá e Inglaterra. Os pacotes são originários não apenas da China, mas também de outros países do continente asiático.

Pacotes são originários de vários países do continente asiático

Até o momento, a hipótese mais plausível para o envio das misteriosas sementes é de que se trata de uma fraude de vendas conhecida por “brushing”. O objetivo é burlar o ranqueamento em sites de e-commerce, como Amazon, E-bay, Aliexpress e outros. Um vendedor golpista pega os dados de um cliente na internet e cria uma conta falsa no site de compras no nome da vítima. Em seguida, efetua a compra de um determinado produto na própria loja virtual e despacha a “mercadoria”, que no caso é um pacote com sementes. Quando a mercadoria chega na casa do “cliente”, o vendedor deixa um comentário positivo e ainda ganha o selo de “comprador verificado”, o que dá mais credibilidade à sua loja virtual. Quanto mais avaliações positivas do vendedor, maiores são as chances de sua loja virtual figurar entre no topo de buscas.

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Folha do Vale