Escadão da Castelo Branco fica pronto até abril

Obra de arte utiliza material de refugo e promete ser atração turística de Braço do Norte

 

Há pouco mais de cinco meses, o Escadão da Rua Castelo Branco, que liga a Felipe Schmidt, a principal avenida de Braço do Norte com o bairro São Basílio, ganha cores e formas diferentes. Tudo porque um grupo de voluntários, com apoio da Prefeitura de Braço do Norte, reveste com cerâmica um local que estava abandonado na cidade.
A ideia de transformar o local em um ponto turístico surgiu há dois anos, quando o chefe de gabinete da Prefeitura, Ramon Beza, fez uma viagem ao Rio de Janeiro e conheceu a Escadaria Selarón. Uma obra arquitetônica localizada entre os bairros de Santa Teresa e Lapa, no Rio de Janeiro, decorada pelo artista chileno radicado no Brasil de longa data, Jorge Selarón, que declarou-a como uma “homenagem ao povo brasileiro”.

Escadaria Selarón é uma obra arquitetônica localizada entre os bairros de Santa Teresa e Lapa, no Rio de Janeiro

“Quando vi aquele local repleto de turistas, já imaginei dar vida ao Escadão de Braço do Norte. Revitalizar aquele local, transformando em um ponto turístico”. Recorda Ramon, que passou a dividir o seu desejo com diversos amigos e, principalmente, com os artistas plásticos da cidade. A missão parecia fácil. Mas não são todos os artistas que dominam a técnica de recorte de cerâmica. Outro fator que desestimulou os artesãos seria a bonificação para o trabalho, praticamente voluntário.
“Fiquei sabendo do projeto em 2019 através do meu filho que é amigo do Ramon”, recorda o empresário Augustinho Machado, proprietário da Casa Piso, uma loja de cerâmicas da cidade. “Na época, havia sido convidado para fazer parte da Câmara Técnica Empresarial, do Desenvolvimento Econômico Local (DEL). Perguntei para os demais integrantes da Câmara o que eles achavam de assumir a revitalização como uma das metas do nosso grupo. Me coloquei à disposição para ser o principal responsável. A Prefeitura viabilizou um pedreiro e convidei um artista para me ajudar na montagem dos painéis”. Augustinho se refere ao amigo Aurélio Martinho, o “Lelo”, um artista plástico de 54 anos, morador de Braço do Norte.
Lelo é artesão, artífice e inventor; um verdadeiro “Professor Pardal”. Durante sua vida criou equipamentos para diversas indústrias. “A última delas foi uma máquina para transformar vidro em um pó que pode ser utilizado na construção civil”, enfatiza.
O desafio agora é usar peças de descarte de cerâmica de forma criativa e que transforme o local em um ponto capaz de atrair visitantes de todos os locais. “Ainda em setembro de 2019, passei a contatar os donos de lojas de cerâmica de Braço do Norte. Todos queriam ajudar. “O Leonardo, da Cia da Cerâmica, doou seis toneladas de piso. Fomos lá buscar um caminhão cheinho, com mais 200 metros de cerâmica. O Túlio, da Demay, doou mais 70 metros, o mesmo que o Cebola e o Jonas da loja Uliano. Juntando com os 80 metros que separei lá da minha loja, tínhamos o material necessário para começar o trabalho”, conta como foi o início do trabalho.
O material foi depositado em um dos pavilhões da Expovale. Para agilizar o serviço, os desenhos eram feitos em uma prancheta. Em seguida os pisos eram separados e colocados em sequência ainda no parque de exposições antes de ser transportado para o Escadão. “Somente depois disso é que a escadaria começava a ganhar o revestimento”, explica Augustinho.

Augustinho e Lelo são os responsáveis pela confecção dos mosaicos

Quando a primeira escadaria foi concluída, os projetistas notaram que faltava “vida” ao local. “As cores estavam muito apagadas. Então liguei para um distribuidor e para uma fábrica pedindo algumas peças diferentes, coloridas. Foi quando a Pierini, de Siderópolis, e a Distribuidora Gabriela nos presentearam a com algumas caixas nas cores amarela e vermelha, bem como algumas peças diferentes”, recorda Augustinho. “Tudo que está aqui, surgiu da minha cabeça e do Lelo”, orgulha-se. Agora, a dupla quebra a cabeça para concluir até meados de março a obra. “Temos somente mais três dias de pedreiro pago pela Prefeitura, mas falta muita coisa ainda. Por isso contamos com o apoio de quem quiser nos ajudar, voluntariamente, a colocar a mão na massa. Queremos entregar o escadão até abril”. Augustinho fala literalmente mesmo. Boa parte do Escadão precisa ser rejuntado e ainda restam algumas cerâmicas para serem colocadas, como a da bandeira do Brasil, que está pela metade em um pedaço da parede lateral da escadaria que receberá azulejos em uma espécie de mosaico bolado pelos dois.
“Nossa ideia é programar pelo menos um grande mutirão no sábado ou no domingo, convidando as pessoas que queiram ajudar. Todos são bem vindos”. Augustinho pretende transformar o dia em uma “festa”. Por isso dividirá em equipes o trabalho. Um para aqueles que colocam o piso, outros que cuidarão da animação, com uma música e outros da alimentação e da bebida. “Será o Dia no Escadão”, planeja.

 

Sustentabilidade e Arte

Augustinho Machado conta que sua principal motivação para realizar voluntariamente a obra é de poder mostrar a todos que é possível transformar o refugo, aquilo que ia para um aterro, em arte. “Quero dar o exemplo. Através do trabalho voluntário é possível transformar o lixo em obra de arte. Provar que a sustentabilidade pode ser praticada aqui e em todos os cantos da cidade e do Brasil”, enfatiza.
Já Lelo, que por vezes faz a função de pedreiro para receber algum trocado da Prefeitura pelo trabalho, diz que poder deixar a sua arte para a eternidade é o maior pagamento que pode receber, mas que precisa do dinheiro para viver. “Faço bem mais pela vontade de ver este local de cara nova do que pelo valor que estou recebendo”, explica.
Após concluir este trabalho a prefeitura irá providenciar a jardinagem e a iluminação. “Um serviço que deve ser concluído em, no máximo, 10 dias e que já está programado”, detalha Wando Ceolin, diretor de Compras da Prefeitura e membro da Câmara Técnica. “Quando pensamos este projeto de revitalização e embelezamento, lembramos também que ele dará mais segurança aos moradores locais. Semana passada mesmo um morador foi agredido naquele local. Com uma melhor iluminação, o local ficará mais seguro”, ressalta Wando.
O diretor de Compras explica que, até o momento, cerca de R$ 40 mil já foram investidos pela prefeitura em materiais extas, como rejunte e cimento, bem como a mão de obra. “A ideia sempre foi reutilizar o maior número possível de materiais vindo de descartes. O próprio corrimão, que planejamos para o local, será feito com quadros de bicicletas. Vai ficar interessante”, acredita.


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