Em meio a 1.291 amostras, avaliadas por um júri altamente qualificado, Santa Catarina colocou três vinhos no topo de suas categorias Tem momentos em que o vinho fala por si. E há momentos em que ele é avaliado às cegas (sem rótulo, sem marketing, sem história) apenas pelo que entrega na taça. E quando, mesmo assim, ele se destaca, não há mais o que discutir: ali existe qualidade de verdade.
Foi exatamente isso que vimos na edição 2026 da Grande Prova Vinhos do Brasil, a maior degustação às cegas de rótulos nacionais. Em meio a 1.291 amostras, avaliadas por um júri altamente qualificado, Santa Catarina colocou três vinhos no topo de suas categorias. E isso, para quem acompanha a evolução da nossa vitivinicultura, não surpreende, apenas confirma.
A Vinícola Kranz, da Serra Catarinense, mostrou mais uma vez consistência e identidade. O Malbec 2012 e o Fabulosum 2010, este último eleito o melhor vinho do estado, não são apenas rótulos premiados, são vinhos que carregam tempo, maturidade e uma leitura muito clara do terroir de altitude. São garrafas que não têm pressa. E talvez seja exatamente por isso que chegam tão longe.
Já o Mastino Montepulciano 2021, da Leone Di Venezia, em São Joaquim, reforça outro ponto que tenho observado com atenção: Santa Catarina está cada vez mais confortável em explorar castas menos óbvias, e acertar. A Montepulciano, tradicional italiana, encontra na serra catarinense um novo sotaque. E quando esse sotaque é reconhecido em uma prova às cegas, significa que ele faz sentido técnico, não apenas conceitual.
Claro, o Rio Grande do Sul ainda lidera em volume e premiações. Isso é natural, pela escala e pela história. Mas o que me chama atenção é o movimento mais silencioso, e talvez mais interessante, que acontece em estados como Santa Catarina. Um crescimento menos acelerado, mais cuidadoso, mas com resultados cada vez mais consistentes.
Outro dado que merece atenção é o avanço dos vinhos de dupla poda, que já representam mais de 20% das amostras avaliadas. Isso mostra que o Brasil está encontrando caminhos próprios, adaptando técnicas, reinventando sua viticultura. E isso, para mim, é um dos sinais mais claros de maturidade do setor.
No fim das contas, concursos são importantes, sim. Mas não pelo troféu em si. Eles são importantes porque ajudam a validar, de forma técnica e imparcial, aquilo que muitos já percebem na prática: o vinho brasileiro evoluiu. E dentro desse cenário, Santa Catarina deixou de ser promessa faz tempo.
Hoje, quando abrimos uma garrafa da Serra Catarinense, já não é mais uma aposta. É uma escolha consciente.
E que bom poder brindar com essa certeza.
Por Claudia Borba – Coluna Abrindo a Garrafa

Abrindo a Garrafa
Cláudia Borba