sábado, fevereiro 27Diário online de Braço do Norte

Abertura da Serra do Corvo Branco registrada em livro

Obra publicada por ex-prefeito de Grão-Pará destaca construção de uma das estradas mais icônicas do Estado

O casal Cleuse Mugnol, 54 anos, e Alcir Peretti, 53, sempre teve vontade de conhecer a Serra do Corvo Branco. Ela é professora de artes e diretora escolar, ele é motorista de caminhão. Aproveitaram o período de férias e resolveram sair de Videira, cidade do Vale do Rio do Peixe, no Oeste Catarinense, em direção ao litoral. Conheceram o Planalto Serrano e visitaram pontos turísticos como a Cascata do Avencal, em Urubici. Mas, para os dois, um dos momentos mais esperados da viagem era a visita à famosa estrada do Corvo Branco. Sonho este realizado na manhã do último sábado, 16 de janeiro.


“Nós sempre ouvimos falar da Serra do Corvo Branco. Foi então que resolvemos fazer esta viagem. Aproveitamos para visitar outros locais ainda desconhecidos, meio que uma aventura mesmo”, conta Alcir. “Para mim, está sendo uma grande emoção conhecer esta Serra. Nós sempre ouvimos falar dela e não podíamos deixar de visitá-la nesta viagem. Neste momento, meus pelos estão arrepiados, mas não é de frio. É pela emoção de estar conhecendo o Corvo Branco”, completa Cleuse, mostrando os braços à reportagem da Folha do Vale.

Casal saiu de Videira para conhecer a famosa estrada

Assim como Cleuse e Alcir, dezenas de outros casais e famílias inteiras, dos mais variados lugares, de veículos diversos – carros, motocicletas, caminhonetes – aproveitaram a manhã de pouca nebulosidade para visitar o topo da Serra. É notável o fascínio que ela desperta nos turistas, de todas as idades, seja pela exuberante natureza, pela impressionante obra de engenharia executada para que a estrada se tornasse uma realidade, ou pelo desafio que é enfrentar as suas curvas e seus trajetos estreitos.
Foi por causa desta admiração, e também pelo importante papel no desenvolvimento de toda uma região, que o ex-prefeito de Grão-Pará Moisés Ascari, aos 79 anos, escreveu e lançou este mês o livro entitulado ‘Serra do Corvo Branco – Um desafio que uniu a Serra ao Litoral”. A obra traz um importante relato histórico, não apenas no trabalho que foi executar a travessia da Serra, como também o registro das primeiras iniciativas para abertura da estrada, ainda nos anos 50.

O livro contém fotos históricas, da época em que foram iniciados os trabalhos de abertura da Serra, além de depoimentos de pessoas que direta ou indiretamente fizeram parte desse grande feito: antigos funcionários das prefeituras de Urubici e de Grão-Pará, lideranças comunitárias, voluntários e também seus descendentes. Também possue recortes do livro de anotações conhecido como “Capa Preta”, que pertencia a Pedro Fridolin Kunhen, morador da comunidade de Aiurê considerado um dos grandes responsáveis para que a obra saísse do papel.

Autor Moisés Ascari (à esquerda) e o tratorista Tiago Coelho de Ávila, que participou da abertura da Serra


“Além de consultar livros de historiadores e jornais antigos. Realizei pesquisas em sites da internet e entrevistei pessoas de diversos municípios. Uma das principais fontes foi o caderno ‘Capa Preta’, que me foi gentilmente cedido pela filha de Pedro Kuhnen, Normélia”, informa o autor. “Uma das entrevistas mais marcantes foi feita com o senhor Tiago Coelho de Ávila, 86 anos de idade, operador de trator que trabalhou 11 anos nessa rodovia. Alguns meses após a entrevista, infelizmente, ele veio a falecer”, acrescenta.

Testemunha da história

O autor lembra de quando seu pai, José Ascari, foi vereador por três mandatos consecutivos – na época os vereadores não recebiam salário – e ouvia histórias sobre pessoas abnegadas no empenho de abrir a estrada que faria a ligação entre Urubici e Grão-Pará. Em 19 de abril de 1980, quando finalmente foi inaugurada a abertura de Serra, Moisés também já havia cumprido dois mandatos como vereador. “Sempre gostei de acompanhar os acontecimentos históricos e, posso dizer, que escrever sobre este tema surgiu do desejo de ampliar meu próprio conhecimento, como também oferecer ao público o registro da incansável luta de trabalhadores que realizaram um sonho que para muitos parecia impossível”, destaca.

Corte de 90 metros na rocha, feito por uma máquina, é o maior do Brasil


Para o ex-prefeito, a Serra do Corvo Branco foi um marco para o desenvolvimento econômico de toda uma região. Ele conta a dificuldade que era para ir, por exemplo, de Grão-Pará a Urubici antes da abertura da estrada. A distância, que era de 154 quilômetros, via Serra do Rio do Rastro, passou para apenas 57 quilômetros com a inauguração do Corvo Branco. “Podemos dizer que os moradores de Grão-Pará e Urubici eram vizinhos que moravam distantes. Além disso, é preciso levar em consideração a importância desta obra nas dimensões econômicas, culturais e turísticas.

Desde que foi inaugurada, causa admiração a todos que por lá passam. A visão que se tem do alto da Serra, nos seus 1.470 metros acima do nível do mar, é de encher os olhos de encantamento. A Serra do Corvo Branco tem o maior corte vertical do Brasil, medindo 90 metros de altura. E também está próxima a vários pontos turísticos de Grão-Pará e Urubici”, ressalta.

Segunda publicação

‘Serra do Corvo Branco – um desafio que uniu a Serra ao Litoral’ é o segundo livro escrito por Moisés Ascari. Em 2015, publicou ‘E Moisés Disse”, que contém relatos e memórias sobre a sua famĺia, política, e causos da comunidade de Grão-Pará. “Sempre fui um assíduo leitor de jornais, mas, com o tempo, passei a gostar de ler livros. Minha família tem o gosto pela escrita. Lá em casa, o primeiro a escrever um livro foi meu primeiro filho, Anselmo. Depois, meu outro filho, Giovani, também escreveu um livro, e foi ele que me motivou e me fez perceber que era momento de eu escrever o meu. Foi assim que, aos 74 anos de idade, escrevi meu primeiro livro”, expõe o autor.

Agora, aos 79 anos, o ex-prefeito apresenta seu segundo livro, que, além de se tornar um importante registro sobre a história da Serra do Corvo Branco, o autor pretende que seja também um ponto de partida para outras pesquisas, ainda mais aprofundadas, sobre a rodovia. “Muitas pessoas fizeram parte da história desta Serra e sei que nem tudo pude colocar neste livro. Espero que outros escritores, no futuro, possam enriquecer ainda mais aquilo que aqui foi iniciado de modo singelo”, diz modestamente.
Aos interessados, a obra ‘Serra do Corvo Branco – um desafio que uniu a Serra ao Litoral’ pode ser adquirida na Livraria Karla, no Centro de Braço do Norte.

Corvo Branco: ontem, hoje e amanhã

ASerra do Corvo Branco, entre os municípios de Urubici e Grão-Pará, faz parte da formação rochosa denominada Serra Geral, a cadeia de montanhas que abrange os estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul, e também parte do Uruguai e da Argentina. A estrada que atravessa a Serra integra a rodovia SC-370, que começa em Tubarão e termina no município de Painel, no Planalto Catarinense.

O nome Corvo Branco se deve ao avistamento constante de urubus-rei na região na época em que a estrada começou a ser construída. A população local tinha o hábito de chamar os urubus de corvos, e o urubu-rei é famoso por sua plumagem predominantemente branca. Também há quem diga que uma formação rochosa, em uma das paredes da Serra, se pareça muito com a cabeça de um corvo.

Inauguração ocorreu em abril de 1980, com a presença do então governador Jorge Bornhausen

As primeiras ações para abertura da estrada entre Grão-Pará e Urubici datam dos anos de 1950. Lideranças de ambas as cidades iniciaram as obras lentamente. O Governo do Estado foi solicitado a participar. Porém, em dado momento seus técnicos acreditaram ser inviável a execução. Foi graças ao empenho de lideranças como Pedro Fridolin Kuhnen que o trecho foi finalmente aberto e inaugurado oficialmente em 19 de abril de 1980, com a presença do então governador Jorge Bornhausen.

O trecho da Serra pelo lado de Grão-Pará apresenta cerca de cinco quilômetros de curvas acentuadas, pistas estreitas e irregulares. “Subir” ou “descer” a Serra requer perícia e atenção ao volante. Contando esta parte, um total de 10 quilômetros da SC-370 ainda restam ser pavimentados. O edital de licitação da obra já foi anunciado pelo atual governador do Estado, Carlos Moisés, e é aguardada a sua publicação ainda este ano.

Para o autor do livro ‘Serra do Corvo Branco – Um desafio que uniu a Serra ao Litoral’, Moisés Ascari, a pavimentação deste trecho não demorará a ser iniciada. “Acredito que o governador irá cumprir com seu compromisso e, em breve, fará o lançamento da licitação para conclusão da obra, que é a parte da Serra propriamente dita. Será mais um passo fundamental, fruto do esforço da população e do Poder Público. Que tudo possa ser feito com seriedade e respeito ao meio ambiente, para o bem comum de toda a região”, defende.

Ascari vê também um grande futuro para a Serra do Corvo Branco. “Essa rodovia se tornará de fundamental importância para o desenvolvimento não só de Grão-Pará, Urubici e o Vale de Braço do Norte, mas também para as regiões Serrana e do Litoral Catarinense. Espero que nas próximas décadas, e para sempre, a Serra continue bela, que sua natureza seja respeitada, que ela seja um ponto de equilíbrio ambiental junto com o desenvolvimento regional em suas diversas dimensões. Que ela continue possibilitando alegrias, paz de espírito e felicidade para as próximas gerações”, setencia.

Registros e anotações de uma façanha

Normélia Kuhnen Salvador, ou “Norma”, como é conhecida por toda a comunidade de Aiurê, onde vive desde que nasceu, é filha de Pedro Kuhnen, o homem que, pelo lado do município de Grão Pará, liderou voluntariamente os esforços para a abertura da Serra do Corvo Branco. Aos 57 anos, ela é também a guardiã do famoso caderno “Capa Preta”, o livro de anotações que pertenceu a seu pai e contém uma série de dados e informações sobre a obra, como pessoas que contribuíram financeiramente ou voluntariamente, valores de doações, equipes de trabalho, ações realizadas entre outras, e que serviu como uma das principais fontes para a elaboração do livro de Moisés Ascari.

Pedro Kuhnen e o seu importante caderno de anotações

Norma não esconde o orgulho que tem de seu pai. Lembra do grande esforço que fez por conta própria e de sua perseverança. “Meu pai resolveu fazer tudo por conta própria, por iniciativa dele mesmo. O Governo do Estado já havia desistido da obra. Engenheiros vieram aqui e disseram que não era possível fazer. Mas meu pai não desistiu e teve de fazer um trabalho também de convencimento da comunidade, sobre a importância e a viabilidade da Serra do Corvo. O trabalho foi realizado com recursos da própria comunidade. As pessoas ajudavam com dinheiro ou doavam alimentos, como porco e carneiro, ou por meio do trabalho voluntário”, relembra Norma.

“Em certo momento, meu pai já era considerado um louco. Muitos não acreditavam mais que seria possível que a Serra se tornasse realidade. Mas, na verdade, meu pai não era louco. Ele era um visionário, uma pessoa à frente do seu tempo, que via como as coisas poderiam ser lá na frente, no futuro”, completa.

Norma, porém, não deixa de valorizar também o papel que outra pessoa da sua família teve para que o sonho da abertura da Serra do Corvo Branco se tornasse realidade. Sua mãe, dona Izabel Esser Kuhnen, também teve importante participação na obra. Embora seu trabalho nem sempre seja lembrado, a filha faz questão de corrigir o equívoco. “Minha mãe foi uma verdadeira guerreira. Meu pai foi a pessoa que liderou os trabalhos, mas era ela que mais dificuldade passava. Além de cuidar da casa e dos filhos, ela também ajudava na alimentação do pessoal que trabalhava na Serra. Ela sofria muito por isso. Trabalhava exaustivamente, fazendo comida para aquela gente toda. Por causa disso, nós tivemos muitas dificuldades. Mal tínhamos com o que nos alimentar. Da comida que nós conseguíamos, a prioridade era para os trabalhadores”, conta.

Norma mostra o caderno ‘Capa Preta’, que pertenceu a seu pai, Pedro Kuhnen

Como passar dos anos, a família conseguiu se estabelecer e progredir. Pedro Kuhnen faleceu em maio de 2001, aos 82 anos. Norma vive atualmente na mesma propriedade que foi que fora de seu pai, no Distrito de Aiurê. Ela e o marido, Alvadi Salvador, são produtores agrícolas e mantêm na propriedade um engenho de cana que produz artesanalmente melado, cachaça e licores. “Neste momento de pandemia, nós decidimos fechar, temporariamente, o engenho para visitação de turistas. Mas, assim que tudo melhorar, estaremos prontos para receber visitantes e contar a eles as histórias do meu pai, o que minha mãe viveu e o eu testemunhei, para que nunca seja esquecida essa grande realização que foi a Serra do Corvo Branco”, defende Norma.

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